quarta-feira, 30 de julho de 2008

Saudade: o sentimento que se manifesta no vácuo.

A saudade só existe se hover ausência. Por culpa do Capitalismo, não damos o valor e a atenção que algumas pessoas merecem; percebemos isso somente quando elas não estão mais ao nosso lado. Esse sentimento não se manifesta apenas por pessoas, mas também por cidades, por objetos, enfim, por tudo aquilo que um dia nos proporcionou felicidade.
A economia capitalista é uma grande vilã para afastar pessoas queridas. Vivemos um período de especialização de mão-de-obra, ou seja, por mais simples que seja o trabalho é necessário ter graduação, especilaização, mestrado e, em alguns casos, até doutorado na área para conseguir um emprego digno. Sendo assim, não temos tempo para cultivar nossas relações humanas e acabamos restringindo nossos contatos interpessoais a meros diálogos via telefone ou à comunicação digital via internet. É nessa hora que percebemos quanta falta faz aquele abraço carinhoso, aquela sopa que a vovó fazia, aqueles conselhos eloqüentes da mamãe, e duvido que alguém nunca teve vontade de voltar ao passado.
Contudo, a saudade não é um sentimento que uma pessoa nutre exclusivamente por outra. Certa feita, ouvi relatos de uma moça que sentia falta do seu ursinho de pelúcia; quis me convencer de que era porque ele fazia companhia a ela nas noites chuvosas de inverno. Sinceramente, tenho para mim que era falta de sua infância que ela sentia; tempo em que a única preocupação que tinha era com as provas do colégio. Hoje seus compromissos são outros, com seus dezoito anos, ela cursa Medicina - longe de sua cidade natal e de seus pais - e divide as tarefas do lar com o irmão mais velho.
A saudade, portanto, é sim um sentimento que se manifesta com a ausência, seja de pessoas, seja de lugares, seja de situações agradáveis. A única forma de não senti-la é ocupando a mente ou com a companhia de amigos, ou com viagens para cidades desconhecidas, que nos proporcionarão novas experiências e deixarão as lembranças guardadas na memória.

sábado, 26 de julho de 2008

O Esposo Complacente - Marquês de Sade

Toda a França sabia que o príncipe de Bauffremont tinha, ou mais ou menos tinha, as mesmas preferências do cardeal de quem acabo de falar. Haviam dado a ele em matrimônio uma mocinha assaz inexperiente, e que, segundo era costume, só foi instruída às vésperas.

- Sem mais explicações, - diz a mãe - pois que a decência me impede de ocupar-me de certos pormenores, tenho uma única coisa a recomendar-vos, minha filha; desconfiai das primeiras propostas que vosso marido vos fizer, e dizei-lhe, veementemente: Não, senhor, não é por aí que se aborda uma mulher honesta; em qualquer outro lugar que vos agrade, mas, certamente, aí não...

Vão ao leito e, por uma norma do decoro e da honestidade sem margem para dúvida, o príncipe, querendo fazer as coisas conforme com os costumes, ao menos pela primeira vez, oferece à sua mulher apenas os castos prazeres do himeneu: mas a jovem bem-educada, lembrando de sua lição:

- Por que me tomais, senhor? - diz-lhe - pensais que eu consentiria essas coisas? Em qualquer lugar que vos agrade, mas, certamente, aí não...
- Mas senhora...
- Não, senhor, inútil insistirdes, nunca me fareis mudar de opinião.
- Pois bem, senhora, devo contentar-vos, - diz o príncipe apropriando-se de seus altares preferidos - eu ficaria bem zangado se dissessem que alguma vez eu quis vos desagradar.


E venham nos dizer agora que não é necessário instruir as moças quanto às obrigações delas, um dia, para com seus maridos!

Um olhar só pra mim - Alda Marques

Busco um olhar que me compreenda,
Um olhar que sorria e que me faça sorrir,
Aquele olhar que veja com o coração e fale ao meu coração,
Um olhar que me emocione, que me conquiste...
Busco um olhar que me perturbe, que me deseje...
Um olhar que em meio a todos, olhe apenas pra mim,
Um olhar amigo, um olhar amante,
Um olhar mudo, que diga tudo que preciso ouvir,
Aquele olhar que refrigere toda ansiedade e aqueça a alma,
Um olhar que me beije, que chore comigo...
Busco um olhar que não se desvie do meu,
Que me provoque, que me encare...
Um olhar de amor, de admiração, de respeito,
Tudo começa no olhar,
Olhares se cruzam numa fração de segundo,
E se apaixonam...
Aprisionam-se numa eterna necessidade...
E que prisão maravilhosa!
Busco um olhar que me acomode na masmorra de seu castelo...
Um olhar que me prenda e me encante pra sempre!

Trecho de Sermão da Sexagésima, de Padre Antônio Vieira

Fazer pouco fruto da Deus no Mundo pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há se haver três concursos: há de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há de concorrer o ouvinte com entendimento, percebendo; há de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelhos e há mister olhos.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Gregório de Matos Guerra

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Luís de Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
vede que perigosas seguranças:
que não tenho contrastes nem mudanças
andando em bravo mar perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde
vem não sei como e dói não sei porquê.

segunda-feira, 21 de julho de 2008